
Olhando pela internet, acabei me deparando com um assunto extremamente interessante. Se trata do Tao, que na cultura chinesa, significa literalmente "caminho". Porém, é um conceito que só pode ser apreendido por intuição. O tao não é só um caminho físico e espiritual; é identificado com o absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares yin e yang, a partir dos quais todas as "dez mil coisas" que existem no Universo foram criadas.
É algo muito simples, mas não pode ser explicado. É o que existe e o que inexiste. Só que nós temos demasiados conceitos dentro da cabeça para o entender como um todo.
O tao é o caminho da espontaneidade natural. É o que produz todas as coisas que existem. O Te (a virtude) é o modo de caminhar espontâneo que dá às coisas a sua perfeição.
O Tao não transcende o mundo; o Tao é a totalidade da espontaneidade ou "naturalidade" de todas as coisas. Cada coisa é simplesmente o que é e faz. Por isso, o Tao não faz nada; não precisa de o fazer para que tudo o que deve ser feito seja feito. Mas, ao mesmo tempo, tudo que cada coisa é e faz espontaneamente é o Tao. Por isso, o Tao "faz tudo ao fazer nada".
Ele também produz as coisas e é o Te que as sustenta. As coisas surgem espontaneamente e agem espontaneamente. Cada coisa tem o seu modo espontâneo e natural de ser. E todas as coisas são felizes desde que evoluam de acordo com a sua natureza. São as modificações nas suas naturezas que causam a dor e o sofrimento.
Se entendermos bem a natureza das coisas e conseguirmos esquecer tudo o que aprendemos que tenta ir contra ela, conseguimos fazer tudo o que é possível, com o mínimo esforço. Porque acabamos por deixar as coisas seguirem o seu curso natural. Não fazemos nada (claramente por nossa vontade própria) mas nada fica por fazer.
Isso é um assunto muito complexo e dificil de ser explicado. Cada um deve aprender o Tao por conta própria. Por isso, deixo aqui para vocês alguns textos chineses, e reflitem como quiserem.
Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do tao, todos os dias algo é deixado para trás.
E cada vez menos é feito
até se atingir a perfeita não-ação.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.
Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.
Tao Te Ching (道德經), Cap. 48
O cego e o sol
(De Su Tungp’o)
Era uma vez um cego de nascença. Nunca tinha visto o sol e perguntava como ele era para as pessoas. Alguém lhe disse: “é como uma bandeja de latão”, e quando o cego, um dia, deu com uma bandeja pendurada, ouviu o som de metal e guardou-lhe como recordação do sol. Um dia, porém, tocaram sinos de bronze e o cego pensou que era o sol. Até que alguém lhe disse: “a luz do sol, na verdade, é como uma vela”. Um dia, o cego apalpou a vela e pensou que esta era a forma do sol. Assim, um dia encontrou um pedaço de bambu no chão e pensou tratar-se do sol. O Sol é muito diferente do sino ou do bambu, mas o cego não pode ver isso porque nunca viu o sol. O Tao é mais difícil de ver do que o sol, e por isso os homens são como o cego. Ainda que vocês façam comparações, exemplos e tratados, o Tao será como o sol para o cego, parecido com uma bandeja, com um sino ou um bambu. Sempre imaginaremos uma coisa, esquecendo de outra. Assim, os homens se afastam cada vez mais da verdade, dando lhe aparências através de nomes. Todos estes enganos são tentativas de compreender o Tao.
Como a língua sobreviveu aos dentes
(Liu Hsiang)
Chang Chuang estava doente e Laotse veio visitá-lo. Este disse a Chang Chuang:
- Estás muito doente. Não tens nada que dizer ao teu discípulo?
- Ainda que não me pergutasses, eu ia dizer-te – replicou Chang – Sabes porque uma pessoa não deve descer do carro quando chega a aldeia?
- Não significa este costume que as pessoas não devem esquecer sua terra de origem? - replicou Laotse.
- Ah, sim... Mas deixe-me perguntar outra coisa; sabes porque uma pessoa deve correr ao passar debaixo de uma arvore alta?
- Não significa que se deve respeitar os mais velhos? - disse Laotse.
- Ah, sim... - então Chang Chuang escancarou a boca e mostrou sua língua para Laotse, pedindo que ele olhasse bem lá dentro, dizendo:
- O que você vê agora?
- Sua língua, mestre – disse Laotse.
- Meus dentes estão aí? – disse o velho.
- Não – replicou Laotse.
- E sabes porque? – perguntou Chang Chuang?
-Não durou a língua mais tempo por ser flexível? E não caíram os dentes por serem mais duros? – retorquiu Laotse.
- Ah, sim... disse Chang Chuang – Acabas de aprender o Tao. Não tenho mais nada te ensinar.
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